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A discussão se a moda é ou não uma forma de arte é tão antiga quanto a própria moda.
Os estilistas querem ser colocados no panteão dos artistas. Querem transcender a idéia corriqueira de que a moda é o “império do efêmero”, que a criação da moda está apenas a um passo da futilidade. Querem superar a idéia que, atendida a função básica de cobrir e proteger o corpo, tudo o mais é descartável.
Essa, aliás, é a principal crítica dos artífices que habitam os ateliês de outras práticas. Pintores e escultores relutam em ver a moda como uma expressão da arte. Os críticos desse conceito afirmam que os apelos da indústria, cada vez mais exigente, colocam a moda como um mero agente da vaidade e da futilidade, em que sua importância artística e social é anunciada apenas como uma camuflagem de seus aspectos mais comerciais e mercantilistas.
Apesar dos críticos, porém, é inegável que os liames da moda são múltiplos. Moda e arte, moda e política, moda e lazer, moda e prazer. A moda está de mãos dadas com tudo e com todos.
A moda é extremamente versátil como forma de expressão, principalmente a expressão artística. Os estilistas usam intensamente as referências artísticas em seu trabalho. John Galliano revê Frida Kahlo, Jean-Paul Gaultier revisita Piet Mondrian, só para citar dois exemplos. A vantagem da moda como forma de expressão é que ela permite ao estilista dizer a que veio, sem o compromisso que um movimento artístico possui com uma mensagem ou idéia. Mondrian queria reduzir a figura a sua essência mais abstrata, ao passo que Gaultier inspirou-se em Mondrian para encantar a platéia.
Essa condição tão libertária e liberada, porém, paradoxalmente está confinada por uma função. Fazemos moda porque precisamos em primeiro lugar cobrir e proteger o corpo. Essa função protetora – e, freqüentemente sinalizadora socialmente - também representa uma prisão: o artista é limitado apenas por sua própria imaginação criadora, ao passo que o estilista fica restrito aos limites físicos do corpo humano. Temos de considerar esses dois fatos, freqüentemente contraditórios, se quisermos analisar em profundidade a relação entre moda e arte.
A moda cumpre objetivos que estão na vanguarda de qualquer expressão artística. A moda pode, assim como a arte comunicar, protestar, encantar, ou meramente declarar sua existência. As possibilidades são ilimitadas. No entanto, o vínculo mais poderoso entre arte e moda é a busca incessante pelo belo, algo que só se consegue através da arte. “As coisas existem por que nós as vemos”, diz Oscar Wilde. A experiência da beleza através dos olhos vai além do meramente racional, e torna-se quase visceral. Fala aos sentimentos, aos desejos. Pode endereçar-se ao mais profundo e subjetivo ou ao mais superficial e objetivo.
Moda é arte, portanto? A resposta seria um sim, se não fosse a limitação funcional da moda – cobrir e proteger o corpo. A moda tem funções; a arte, não necessariamente. A moda não se liberta da funcionalidade, o que a torna “maculada” como arte. Sua reprodução – ou mesmo a possibilidade de reprodução - neutraliza o apelo individual e único que só a arte possui.
Essa limitação, porém, não desmerece a moda, que se coloca numa posição isolada no panteão das artes. A moda reina soberana. Encerra em si a essência da arte como uma não-arte, que manipula o individuo submetendo-o a uma invenção de si mesmo sempre que se veste. Colocada dessa forma, a moda como a arte modifica a realidade ambiente. “E uma nova personalidade emerge no momento de exceção, quando a esfera da pessoa se acrescenta a uma ambiência fictícia, feita de novas cores.” (G. Melo e Souza).
Val Oliveira – e-mail: valcastaneda@hotmail.com Designer de Moda graduada pela Belas Artes- São Paulo, artista plástica e confeccionista.
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