Moda & Cinema: emoção á primeira vista

No momento em que as luzes se apagam e, na tela, surge um personagem, o espectador já pode ter uma idéia, pelo seu jeito de vestir, se ele é rico ou pobre, se está triste ou alegre, em que época se passa o filme e onde se desenrola a história.

A roupa é a radiografia de comportamento. Logo à primeira vista, o figurino constitui-se num importante fator de rejeição/aproximação do espectador em relação ao personagem e essa quantidade de informações é fundamental para transportá-lo de imediato para a fantasia do enredo.

No cinema mudo, a carga dramática era passada não só pelas expressões faciais, onde a maquiagem tem papel fundamental, como também pelo guarda-roupa que definia claramente o papel dos atores. Theda Bhera, Charles Chaplin, Gloria Swanson  e a dupla Hardy Laurel (O Gordo e o Magro) fizeram do vestuário sua marca registrada.

Durante a depressão americana e no início da década de 40, as salas de cinema eram o refúgio de uma população castigada pela miséria. Hollywood ataca com seus grandes musicais. Na tela, galãs e estrelas glamourosas criavam uma atmosfera de sonho e delírio. Tudo era maior que o normal: os diamantes eram imensos, os casacos de pele colossais, os tecidos caríssimos. Enfim, luxo puro desfilando por cenários grandiosos e que transpunham uma realidade distorcida que alimentava a fantasia do público.

Nesse momento, uma forma de levar para casa essa magia era copiar dos pés à cabeça o visual do astro predileto. O cinema faz moda. E tantas vezes mais essa ligação direta lança modismos e direciona a criação dos estilistas. Nos anos 80, a inesquecível Annie Hall, do filme de Woody Allen, cria um visual irreverente com suas roupas desestruturadas, masculinas e amplas, contagiando uma legião de adeptas.

Mas, quantas vezes a moda vai buscar referências nos filmes antigos, reciclando estilos? Em 1943, Rubby Keller vestia short por debaixo da maxi-saia em “42nd Street”. Nos anos 70, muitas mulheres adotaram a proposta sem sequer ter idéia da referência.

E o que dizer das transparências, tendência ainda muito atual. Basta folhear alguns livros de cinema para constatar que muitas estrelas usaram deste artifício para seduzir e realçar movimentos, como Ginger Rogers em “Flying Down to Rio”. Ela valorizou cada passe de sua cenografia com Fred Astaire – a personificação da elegância clássica masculina.

Carmem Miranda, sem dúvida, foi precursora do visual psicodélico com turbantes surreais e roupas super coloridas. Suas sandálias de plataforma, usadas para compensar a baixa estatura da pequena notável, viraram moda nos anos 70 e estão sendo revividas agora, mais uma vez.

As curvas de Marilyn Monroe, realçadas por aderências, insinuam sensualidade espontânea, que de certa forma influencia a atual retomada de valorização do corpo feminino, sobretudo no Brasil. Brigitte Bardot, símbolo sexual da década de 60, também reforça esse resgate da feminilidade, na época, reflexo da explosão do amor livre, como política de transformação do mundo. Suas calças justas, seios displicentemente marcados marcaram um estilo que já traduziu a silhueta idealizada por alguns estilistas.

Nessa fusão cinema/moda, impossível esquecer Audrey Hepburn, referência fashion incontestável. Os estilistas dos anos 80 muitas vezes se reportaram ao clima de elegância e sofisticação de Holly Golghty – personagem vivida pela atriz em “Bonequinha de Luxo” – vestida por Hubert de Givenchy, célebre estilista francês que a acompanhou com seus figurinos por toda sua carreira.

A elegância definitiva de Grace Kelly, com saias amplas, cintura marcada, twin-set, colar de pérolas, e clássica bolsa eternizada por Hermés, enfeitiçou não apenas o imortal Hitchocock, mas os criadores e aficionados da moda.

No vestuário masculino, a década de 30 é marco da sofisticação. E nos anos 80 a moda retoma, via Giorgio Armani, a amplidão do corte dos ternos, silhueta típica da década de 40, registrada magistralmente no figurino criado pelo estilista italiano para o filme de Brian de Palma “Os Intocáveis”.

É irrefutável a transgressão de comportamento/moda anunciada por James Dean em “Juventude Transviada” e por Marlon Brando em “Um bonde chamado desejo”. Jeans e camiseta tornam-se símbolo de contestação de toda uma geração. Hoje, é o uniforme do cotidiano apressado, sem rebeldia. No final dos anos 60, Woodstock retrata e influencia a juventude e rompe com todas as regras e convenções. Flores no poder e nos cabelos, influência oriental, espelhos, jeans salpicados de tachas, brilhos bordados e com bainhas desfiadas/franjadas. Liberdade de usar e abusar eram as palavras de ordem.

Depois de tanta ousadia surge a linha despojada, clean. O ar blasé do anti-herói da década de 80 é inspirado em tipos clássicos de filmes noir dos anos 40. Mickey Rouke, em “9 e 1/2 Semanas de Amor”, dá o tom minimalista da moda. Camisa branca, terno escuro, muito cool. Em Wall Street, a sofisticação artificial dos yuppies, comprando o mais caro e o mais vistoso, faz alarde de um gênero que é copia do diretamente pelos executivos em Nova York, simbolizando status e poder. Camisas listradas de punho e gola em cor contrastante, chamada “gekko” – nome do personagem interpretado por Michael Douglas – suspensórios, abotoaduras espalhafatosas, prendedores de gravatas invadiram, na época, escritórios, bancos e corretoras.

No final do século XX, início de um novo milênio, houve um momento de revisão. A moda foi repassando todos os estilos do século, e usou o cinema como ponto de partida para questionamentos estéticos, e, por sua vez, a Sétima Arte, de forma indireta e crítica, divulgou, mais uma vez, modismos, com ou sem retoques.

Autora: Ruth Joffily (ruj@br.inter.net). Jornalista, escritora e professora de moda na Universidade Veiga de Almeida – Rio de Janeiro.

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